Negritude e Migração

Quando estudamos o fenômeno migratório, entendemos que a integração só se efetiva se houver acolhimento, respeito e abertura de ambos os envolvidos: migrantes e sociedade recebedora.

Migrantes pertencentes a grupos socialmente discriminados podem ter maior dificuldade em integrar-se na sociedade do país de recebimento devido à atos discriminatórios, racistas e xenófobos.

O Brasil foi destino de aproximadamente cinco milhões de pessoas escravizadas durante três séculos. No total, estima-se que onze milhões de pessoas foram traficadas do continente que hoje conhecemos como África até o continente que hoje chamamos de Américas. O deslocamento forçado desses seres humanos é conhecido como diáspora africana.  

A cultura desses povos foi desprezada, sua religião demonizada, sua dignidade e humanidade foi negada. De repente, diferentes etnias foram homogeneizadas sob rótulos estigmatizantes. A identidade dos povos iorubas, jejes, bijagós, entre outros, foi reconfigurada a partir do local de onde seus traficantes os enviavam em navios para outras terras. Assim, passaram a ser identificados como os bantus, aqueles provenientes do centro-sul do continente, os nagôs eram os que falavam ioruba e mina seriam os povos da Costa da Mina – faixa litorânea dos atuais Gana, Togo, Benin e Nigéria.

É difícil encontrar paralelos na história recente de algo tão devastador e duradouro quanto o período de saque e expropriação dos continentes africano e americano por povos europeus desde o século XVI. As consequências desse momento ainda permanecem e podem ser sentidas de diversas formas. Não é possível pensar o mundo ocidental atual e suas bases políticas, econômicas, filosóficas e culturais sem considerar que ele foi fundado ao longo dos últimos cinco séculos sob um regime de expropriação ou mesmo aniquilamento de civilizações inteiras, como as Maias, Astecas, Benin e Zulu.

No fenômeno migratório contemporâneo, independentemente se o deslocamento é forçado ou não, parece existir um pacto informal que determina quem terá mais dificuldades de acesso à direitos, aceitação, integração e dignidade. O fato é que as pessoas negras estão entre as mais propensas a ter de lidar com esses reveses ou a ter de enfrentá-los em suas formas mais hostis.

Lembro-me do relato de uma jovem estudante universitária angolana que veio ao Brasil como intercambista. Ela me disse que ficou impressionada ao notar que, no ônibus, algumas pessoas evitavam sentar-se ao seu lado preferindo, às vezes, fazer o trajeto em pé. Foi então que ela se descobriu “negra” no Brasil, e isto significa ter de aprender a lidar com o racismo e micro agressões cotidianas. Em Angola, a cor de sua pele não era um dado que a marcava socialmente, tampouco a colocava numa condição de inferioridade social.

Outra história que me intrigou aconteceu com um amigo branco paulista. Ele me contou sua experiência como migrante na Rússia junto com um colega negro, também migrante. Apesar de ambos serem brasileiros e trabalharem no mesmo ramo, as experiências de meu amigo branco eram cheias de relatos de acolhimento e situações inusitadas que acabavam bem. Já o seu colega negro escrevia cartas aos amigos no Brasil contando histórias de dificuldades, isolamento e tratamentos desumanizados. Interessante que essas diferenças de tratamento eram contadas como se fossem “parte do jogo”, como se fossem a ordem natural da vida. Nada disso me parece natural nem deveria ser normal.

Um estudo realizado pela universidade de Stanford (The Diversity-Innovation Paradox in Science, 2020) analisou aproximadamente 1,2 milhão de dissertações acadêmicas. Os resultados evidenciam que grupos sub-representados, como mulheres e negros, “produzem taxas mais altas de novidades científicas. No entanto, suas novas contribuições são desvalorizadas e desconsideradas”.

Como estamos próximos ao Dia da Consciência Negra, quero dar minha contribuição para você leitora e leitor. A contribuição é no sentido de provocar em nós o interesse em conhecer e valorizar a cultura de povos africanos que são parte da constituição e futuro de nosso país.

Farei uma breve lista de feitos e legados de afrodescendentes em diferentes áreas. Na literatura, temos a Maria Firmino dos Reis; musicista, compositora e escritora. Sua obra Úrsula, publicado em 1859, foi o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. Na academia, Milton Santos foi notável geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado, professor universitário. O primeiro e, até o momento, único geógrafo da América Latina a ganhar o prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Doutor honoris causa em dezenas de instituições ao redor do mundo, Milton atuou como pesquisador convidado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Na arquitetura, Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, foi um homem negro escravizado cujo trabalho foi decisivo na modernização arquitetônica da cidade de São Paulo no séc. XVIII. Joaquim era autodidata e tornou-se proeminente jornalista e escritor abolicionista. No campo da ciência, a pesquisadora baiana Viviane dos Santos Barbosa desenvolveu um produto catalizador que reduz emissão de gases poluentes. Seu trabalho com foco na engenharia química e nanotecnologia é internacionalmente conhecido e premiado.

Esses são apenas alguns exemplos de pessoas que certamente tiveram que romper muitas barreiras para desenvolver seu potencial e deixar um legado do qual desfrutamos. Imaginem o quanto a humanidade poderia ganhar se nós conseguíssemos acolher mais a diversidade!

A valorização das diferentes culturas e da diversidade, em todas suas cores e formas, é um potente fator de desenvolvimento para a sociedade como um todo – quer você seja migrante ou parte da sociedade de recebimento.

Texto: Renata Rodrigues Santos

Foto: arquivo pessoal

Migração em tempos de pandemia: O vírus que não reconhece fronteiras e as fronteiras que discriminam as pessoas.

Foto: Anna Shvets

Alguns estudiosos afirmam que o século XX começou, de fato, depois da gripe de 1918. No contexto atual, há quem assegure que a pandemia de COVID-19 é o marcador histórico do início do século XXI, dadas as intensas mudanças mundiais já instaladas e as que advirão após esse surto.

Em um mundo com relações globalizantes, sobretudo no âmbito comercial, o alastramento da doença e suas consequências não demorou a acontecer. O estilo de vida foi alterado drasticamente, as relações socioafetivas passaram a ser vistas como perigosas. Confinamento, mortes de milhares de pessoas em curto espaço de tempo, enterros coletivos e sem os rituais de despedida, incertezas quanto ao futuro. Todas essas cenas, carregadas de significados e sofrimento emocional, se repetem ao redor do mundo.

O vírus causador da atual pandemia não faz distinção alguma entre aqueles a quem vai infectar. No entanto, sabemos bem quais pessoas serão mais afetadas: os que já se encontram em situação de vulnerabilidade. Dentre eles, os migrantes.

As migrações podem ser classificadas de diferentes modos a depender dos aspectos considerados. Dentre os diversos tipos de migração temos a voluntária, na qual a pessoa planeja e decide migrar sem necessariamente ter um fator que a impeça de permanecer em sua residência de origem. Este seria o caso dos estudantes de intercâmbio e dos expatriados de multinacionais. Por outro lado, há casos em que conflitos, desastres naturais ou mesmo perseguição política tornam as condições de vida insustentáveis, impelindo as pessoas a migrarem forçadamente para preservar suas vidas, é a chamada migração forçada. Este é o caso dos 26 milhões de refugiados ao redor do mundo, de acordo com os dados mais recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR, 2020).

Antes mesmo do início da pandemia, observávamos o aumento das restrições impostas por diferentes países ao acolhimento dessas pessoas. Alguns países ricos adotaram medidas que violavam acordos internacionais, como a deportação de refugiados para territórios onde suas vidas estão em risco (União Europeia) e a detenção de refugiados em ilhas ou prisões (Austrália e Estados Unidos da América).

Com o advento da pandemia de COVID-19, a situação dos milhões de migrantes forçados ficou ainda mais difícil. Imagine as dificuldades em manter distanciamento social quando se vive numa tenda ou cômodos compartilhados com várias outras pessoas. Considere, por exemplo, qual seria a possibilidade em se manter hábitos de higiene em locais onde o acesso a água é restrito.

Há ainda o caso dos inúmeros migrantes que vivem nas sombras devido à irregularidade de sua situação migratória. Em geral, essas pessoas sobreviviam de trabalhos informais e contavam com apoio de organizações da sociedade civil para se manter no país enquanto tentavam a regularização de sua permanência.

Com a pandemia se alastrando, as medidas de distanciamento social expuseram esses migrantes ao risco de detenção ou deportação dado o aumento da fiscalização policial nas ruas. Sem poder ir às ruas para garantir seu sustento e sem apoio de organizações ou instituições, que encerraram suas atividades, essas pessoas se veem em grave vulnerabilidade social. Além disto, em muitos países, o acesso aos serviços de saúde pública não se estendem a quem está em situação irregular e a assistência privada está além das possibilidades de tais migrantes.

Sabemos que o feito migratório é um evento que coloca a pessoa diante de grandes mudanças. A necessidade de adaptação tanto para quem migra voluntariamente quanto para os migrantes forçados pode ser um potente estressor que interfere no bem-estar emocional. Aprender uma nova língua, compreender o sistema social vigente no país de acolhimento, encontrar meios para superar os obstáculos estruturais e resgatar a autonomia são alguns dos desafios comumente enfrentados pelos migrantes.

Quando nos deparamos com situações críticas, como pode ser a migração e integração em outra cultura, normalmente apresentamos reações emocionais, cognitivas e comportamentais que expressam o sofrimento psíquico decorrente desses eventos.

Obviamente, as pessoas que migram forçadamente, tendem a apresentar maiores dificuldades no processo migratório. Tornam-se mais suscetíveis a desenvolver problemas de saúde mental, muitas vezes ensejados pelas dificuldades persistentes e falta de apoio psicossocial adequados.  

É neste contexto de eventos estressores, com os quais as pessoas migrantes têm de lidar cotidianamente, que a pandemia de COVID-19 se torna ainda mais ameaçadora à saúde física e mental. As condições adversas são exacerbadas haja vista o acúmulo de incertezas quanto ao futuro, as restrições no acesso aos serviços básicos e o afastamento das redes socioafetivas tradicionais de apoio.

Diante desse cenário, é imperioso que os migrantes tenham seus direitos preservados e que estas populações consigam acesso aos serviços de saúde mental, caso os necessitem, e condições mínimas que favoreçam seu bem-estar psicossocial. Para isso, além das ações relativas aos governos, cada pessoa da sociedade pode contribuir através de atitudes acolhedoras, não discriminatórias e valorizam as diferenças culturais, afinal, quando sair de seu país e uma questão de vida ou morte, acolher é uma questão de toda a humanidade.

Texto: Renata Rodrigues Santos

Renata é psicóloga e mestre em psicologia clínica e da saúde. Desde 2012 tem trabalhado no âmbito humanitário em situações de conflitos, epidemias, desastres e migração.