Migração em tempos de pandemia: O vírus que não reconhece fronteiras e as fronteiras que discriminam as pessoas.

Foto: Anna Shvets

Alguns estudiosos afirmam que o século XX começou, de fato, depois da gripe de 1918. No contexto atual, há quem assegure que a pandemia de COVID-19 é o marcador histórico do início do século XXI, dadas as intensas mudanças mundiais já instaladas e as que advirão após esse surto.

Em um mundo com relações globalizantes, sobretudo no âmbito comercial, o alastramento da doença e suas consequências não demorou a acontecer. O estilo de vida foi alterado drasticamente, as relações socioafetivas passaram a ser vistas como perigosas. Confinamento, mortes de milhares de pessoas em curto espaço de tempo, enterros coletivos e sem os rituais de despedida, incertezas quanto ao futuro. Todas essas cenas, carregadas de significados e sofrimento emocional, se repetem ao redor do mundo.

O vírus causador da atual pandemia não faz distinção alguma entre aqueles a quem vai infectar. No entanto, sabemos bem quais pessoas serão mais afetadas: os que já se encontram em situação de vulnerabilidade. Dentre eles, os migrantes.

As migrações podem ser classificadas de diferentes modos a depender dos aspectos considerados. Dentre os diversos tipos de migração temos a voluntária, na qual a pessoa planeja e decide migrar sem necessariamente ter um fator que a impeça de permanecer em sua residência de origem. Este seria o caso dos estudantes de intercâmbio e dos expatriados de multinacionais. Por outro lado, há casos em que conflitos, desastres naturais ou mesmo perseguição política tornam as condições de vida insustentáveis, impelindo as pessoas a migrarem forçadamente para preservar suas vidas, é a chamada migração forçada. Este é o caso dos 26 milhões de refugiados ao redor do mundo, de acordo com os dados mais recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR, 2020).

Antes mesmo do início da pandemia, observávamos o aumento das restrições impostas por diferentes países ao acolhimento dessas pessoas. Alguns países ricos adotaram medidas que violavam acordos internacionais, como a deportação de refugiados para territórios onde suas vidas estão em risco (União Europeia) e a detenção de refugiados em ilhas ou prisões (Austrália e Estados Unidos da América).

Com o advento da pandemia de COVID-19, a situação dos milhões de migrantes forçados ficou ainda mais difícil. Imagine as dificuldades em manter distanciamento social quando se vive numa tenda ou cômodos compartilhados com várias outras pessoas. Considere, por exemplo, qual seria a possibilidade em se manter hábitos de higiene em locais onde o acesso a água é restrito.

Há ainda o caso dos inúmeros migrantes que vivem nas sombras devido à irregularidade de sua situação migratória. Em geral, essas pessoas sobreviviam de trabalhos informais e contavam com apoio de organizações da sociedade civil para se manter no país enquanto tentavam a regularização de sua permanência.

Com a pandemia se alastrando, as medidas de distanciamento social expuseram esses migrantes ao risco de detenção ou deportação dado o aumento da fiscalização policial nas ruas. Sem poder ir às ruas para garantir seu sustento e sem apoio de organizações ou instituições, que encerraram suas atividades, essas pessoas se veem em grave vulnerabilidade social. Além disto, em muitos países, o acesso aos serviços de saúde pública não se estendem a quem está em situação irregular e a assistência privada está além das possibilidades de tais migrantes.

Sabemos que o feito migratório é um evento que coloca a pessoa diante de grandes mudanças. A necessidade de adaptação tanto para quem migra voluntariamente quanto para os migrantes forçados pode ser um potente estressor que interfere no bem-estar emocional. Aprender uma nova língua, compreender o sistema social vigente no país de acolhimento, encontrar meios para superar os obstáculos estruturais e resgatar a autonomia são alguns dos desafios comumente enfrentados pelos migrantes.

Quando nos deparamos com situações críticas, como pode ser a migração e integração em outra cultura, normalmente apresentamos reações emocionais, cognitivas e comportamentais que expressam o sofrimento psíquico decorrente desses eventos.

Obviamente, as pessoas que migram forçadamente, tendem a apresentar maiores dificuldades no processo migratório. Tornam-se mais suscetíveis a desenvolver problemas de saúde mental, muitas vezes ensejados pelas dificuldades persistentes e falta de apoio psicossocial adequados.  

É neste contexto de eventos estressores, com os quais as pessoas migrantes têm de lidar cotidianamente, que a pandemia de COVID-19 se torna ainda mais ameaçadora à saúde física e mental. As condições adversas são exacerbadas haja vista o acúmulo de incertezas quanto ao futuro, as restrições no acesso aos serviços básicos e o afastamento das redes socioafetivas tradicionais de apoio.

Diante desse cenário, é imperioso que os migrantes tenham seus direitos preservados e que estas populações consigam acesso aos serviços de saúde mental, caso os necessitem, e condições mínimas que favoreçam seu bem-estar psicossocial. Para isso, além das ações relativas aos governos, cada pessoa da sociedade pode contribuir através de atitudes acolhedoras, não discriminatórias e valorizam as diferenças culturais, afinal, quando sair de seu país e uma questão de vida ou morte, acolher é uma questão de toda a humanidade.

Texto: Renata Rodrigues Santos

Renata é psicóloga e mestre em psicologia clínica e da saúde. Desde 2012 tem trabalhado no âmbito humanitário em situações de conflitos, epidemias, desastres e migração.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s